Na minha adolescência em Rio do Oeste, anos 70, acompanhei quatro grandes transformações da humanidade, no que diz respeito à minha condição de homem do sexo masculino morando em um pequeno vilarejo do interior eminentemente agrícola e pastoril.

Coisas que causaram profundo impacto sobre os usos de costumes da população local.

CUECA DE MALHA

Homem naquela época usava cueca de tecido.

Ou ceroulas.

Quando vieram as primeiras cuecas de malha foi um escândalo.

O cara que entrasse num vestiário de jogo de futebol usando aquilo era levado à presença do árbitro da partida e era expulso preventivamente.

BERMUDAS

Calça curta era coisa de guri pequeno.

Homem usava calça comprida.

Calça de tecido, diga-se.

Preta.

Quando vieram as bermudas jeans os mais jovens começaram a usar e viravam alvo dos mais velhos.

Alguns de meus tios não aprovavam muito a liberalidade da minha mãe e de meu pai por me deixarem sair por aí usando bermudas.

CALÇAS JEANS

Também causaram certa celeuma.

Usar calças jeans era coisa prafrentex, como se dizia.

Os mais conservadores, a turma do interior, olhavam atravessado para quem as usasse.

Mais discriminados ainda eram os sujeitos que usavam calça boca de sino.

Dessas eu escapei.

Nunca tive coragem.

Mas acho que, mesmo que tivesse, o Neni Tonet não ia deixar.

Há um limite para tudo.

CALÇA COM ZÍPER

A maior revolução sexual rioestina setentina.

Ainda mais que as cuecas.

Homem usava calça de tecido e com braguilha de botão.

Ai vieram os jeans, unissex, esse mundo tá perdido, nada mais é como antigamente, mas tudo bem, dá pra ir levando.

Mas agora, ZÍPER EM CALÇA DE HOMEM, NÃO!!!!

Onde é que vamos parar?

Zíper é coisa de calça de mulher, e olha que mulher tinha é que estar usando vestido, não tinha nada que usar calça.

Zíper em calça de homem foi uma novidade estrondosa.

A primeira calça jeans que minha mãe me comprou tinha botões na braguilha, como devia ser.

Os primeiros caras a usar zíper em calça em Rio do Oeste se transformaram numa espécie de Joana d´Arc da revolução dos costumes.

Muitos foram açoitados, amarrados atrás de um cavalo e arrastados até a fronteira com Laurentino, de onde era banidos para sempre.