Não me lembro exatamente quando perdi a fé na religião católica sob a qual fui criado, passando a desacreditar em Nossa Senhora, no Pai, no Filho e no Espírito Santo.

Espírito Santo este que, até hoje, não sei bem o que é.

Uma coisa desse rompimento que me lembro aconteceu justamente numa Sexta-Feira Santa, como a de hoje.

Talvez em 78, 79, não lembro direito.

Todos os anos lá ia eu cumprir toda aquele sacrossanto e interminável roteiro de lava-pés, missa disso, missa aquilo, adoração, procissão, benção de ramos, confissão e não sei mais o quê.

Tudo muito demorado, entediante e chato.

Mas, afinal, o caminho da salvação era pra ser assim mesmo, com muito sacrifício.

Sexta-Feira Santa era levada a sério em Rio do Oeste.

Muito a sério.

Os bares não podiam abrir de jeito nenhum.

Se abrisse, talvez o dono fosse excomungado pelo padre antes de ser enforcado pela turba enfurecida e possivelmente à noite o bar seria incendiado e saqueado por cidadãos portanto archotes e cruzes.

A Rádio Mirador suspendia a programação e passava dia todo tocando música instrumental triste, dolorosa, em respeito ao Senhor.

Se tocasse alguma música provavelmente tomaria um pito do bispo.

Foi pelas quatro da tarde que eu voltava de alguma cerimônia penosa e obrigatória, caminhando a pé, sozinho, pela rua principal.

A porta do Bar do Coxa se entreabriu e meu amigo Sérgio Luís Berri me chamou.

– Psiu, ei, vem aqui. Vem tomar uma cerveja.

Fui.

Mas antes de entrar falei:

– É Sexta-Feira Santa.

– E daí?

Esse “E daí?”, foi fulminante. Foi ele que me levou a entrar.

Entrei e me peguei fazendo algo totalmente impensável até aquele momento: eu estava violando todas as leis do catolicismo que pregavam sacrifícios e abstinências na Semana Santa.

Depois disso a Sexta-Feira Santa nunca mais foi santa pra mim.

E até hoje acho estranho a fé das pessoas em algo que não consigo acreditar.

Uma fé que me parece difícil de retomar, nem mesmo diante da atuação do Francisco Cuoco na Paixão de Cristo de Guabiruba.