• A abertura de alguns arquivos da ditadura e a instalação da Comissão da Verdade coincidem com o surgimento de novos livros sobre o período militar.
  • Acabo de ler um deles, “Memórias de uma Guerra Suja“, do delegado Cláudio Guerra, que confessa ter assassinado dezenas de presos políticos.
  • Ele explica que havia um método usado pela repressão segundo o qual os torturadores não matavam e os matadores não torturavam.
  • Cláudio fornece os nomes de muitos militantes que diz ter matado e dá detalhes das operações.
  • Paradoxalmente, Guerra defende os assassinatos, mas se mostra completamente contra a tortura.
  • A obra é rica em detalhes e traz informações importantes para quem se interessa pela nossa história política recente
  • A leitura do livro me levou a identificar duas questões ligadas ao assunto: a “ética” e o corporativismo.

A “ÉTICA”

  • Guerra revela que havia uma espécie de ética por parte dos militares: os assassinos podiam infringir e lei em suas missões obscuras, mas não deveriam usar essa impunidade para benefício próprio ou envolvimento com crimes comuns.
  • Ele informa que chegou a participar de reuniões com um grupo que iria matar o delegado Sérgio Paranhos Fleury, acusado de ter enriquecido ilicitamente e de estar extrapolando nos negócios. Segundo ele, outro grupo acabou assumindo a missão.
  • Outro a morrer por causa disso foi Mariel Mariscot, policial carioca famoso nos anos 70, que se envolveu com bicheiros, tráfico de drogas e o Esquadrão da Morte, também conhecido como Scuderie Le Coq,

O CORPORATIVISMO

  • Após a redemocratização, o delegado Cláudio Guerra passou vários anos preso, acusado da morte de uma colunista social no Espírito Santo.
  • Ele carrega nas costas as suspeitas de mais de 40 crimes comuns, além dos assassinatos de presos políticos.
  • Cláudio cometeu muitos assassinatos a partir do seu envolvimento com a Scuderie Le Coq.
  • O que se observa na abordagem de mais essa obra, é o interesse zero de nossas autoridades pelas vítimas comuns das barbaridades, torturas e assassinatos cometidos no Brasil contra cidadãos comuns.
  • Há um clamor para que as famílias dos desaparecidos políticos saibam o que aconteceu com eles.
  • Há outro clamor, por parte das forças armadas e setores conservadores, para que se esqueça tudo ou que se investigue também os crimes dos comunistas.
  • Os dois lados agem de forma claramente corporativa, cada qual preocupado com o seu lado, a sua turma, as suas vítima e os seus acusados.
  • Já os cidadãos brasileiros comuns e apolíticos que tiveram familiares presos, torturados ou assassinados por gente do tipo do delegado Cláudio Guerra, não são sequer lembrados.
  • O cidadão brasileiro pertence à mais fraca e insignificante das corporações.
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