• Victória, uma das primeiras

    Já que estamos vivenciando o Festival Brasileiro de Cervejas em Blumenau, resolvi publicar substanciosas informações sobre a produção cervejística blumenauense. Encontrei-as vasculhando o Arquivo Histórico da prefeitura.

  • Em 1860, quando Blumenau tinha apenas 950 moradores, o irriquieto imigrante alemão Heinrich Hosang deu um jeito de fundar a primeira cervejaria da cidade.
  • A empresa funcionou até 1923. Uma de suas marcas mais famosas era a Cerveja Victória, ainda fechada com rolha de cortiça.
  • Em seu livro contábil, Hosang anotava detalhes sobre seus clientes, revelando indiscrições como o consumo diário de três garrafas por parte do médico da colônia, o Dr. Valotton, conhecido por não ser exatamente um profissional sóbrio. Vitorino de Paula Ramos, chefe do Comissariado de Terras, contentava-se com uma garrafa por dia.
  • A própria família do Dr. Blumenau, fundador da cidade, consumiu 126 garrafas em seis meses, uma média mensal de 21 garrafas.
  • A partir de 1862, outros fabricantes se estabeleceram em Blumenau.
  • Até o final do século 19, outras dez pequenas cervejarias surgiram na cidade.
  • Entre elas estava a Cerveja Rischbieter Brauerei, fundada por Carlos Rischbieter, cuja vida foi marcada por um dado curioso: tendo enviuvado, casou-se posteriormente com a irmã do pai da esposa falecida. Com isso, tornou-se cunhado do sogro e da própria irmã que, por sua vez, ficou sogra e cunhada do irmão.
  • Bavária e Favorita foram algumas das marcas produzidas pela empresa, que funcionou até 1914.
  • A Cervejaria Jennrich colocou no mercado as marcas Estrela, Polar e Kulmbach. Seu fundador, Otto Jennrich, era conhecido pelas esquisitices.
  • Andava de tamancos e não raro embebedava-se com os consumidores de suas cervejas. Fumante de cachimbos, inventou uma máquina de picar fumo com a qual conseguiu decepar um dedo.
  • Levando a sério uma pilhéria do médico que o informou sobre a impossibilidade de recolocar o dedo no lugar, deixou-o secar e passou a usá-lo como limpador de cachimbos.

RELATO HISTÓRICO

  • As informações levatadas por mim estão condensadas no artigo “Cervejarias de Blumenau“, publicado na revista Blumenau em Cadernos em setembro de 1960 pelo jornalista e historiador José Ferreira da Silva. Abaixo, você lê a íntegra do artigo:

Cervejarias de Blumenau

J. Ferreira da Silva

Não há muito tempo, “Blumenau em Cadernos” lembrou que seria interessante contar a história das cervejarias de Blumenau, relembrando os velhos tempos da “Schuetzen Verein”, da “Frohsinn”, da “Gemuetlichkeit”, dos torneios de canto e de ginástica, que a loura e espumante bebida presidia, enchendo de alegria as almas e os corações.

O assunto é, realmente, tentador. Para a sensibilidade de poetas, principalmente, ou das criaturas sonhadoras, esquecidas do corpo envelhecido, vivendo a saudade dos tempos que lá se foram, nas rodadas do “skat”, ou nas cantorias inspiradas no tilintar dos copos, ou das desajeitada batidas dos canecões de porcelana cinzelada, cujas inscrições, pelo sentido e pela arte da gravação, representavam novos convites à intemperança, ao esquecimento das agruras da vida, para o mergulho de magoas e dissabores na espumígera e inspiradora infusão.

Qual de nós, que já vamos, na atribulada, e longa peregrinação pêlos mares da vida, dobrando o “cabo da Boa Esperança”, das ilusões e das quimeras, não sente saudades da Blumenau colonial, da cidade modesta, onde, a par da severidade de costumes, do gosto pela cultura física, da mente e do espírito, havia consciência da necessidade das alegrias sadias, que retemperassem energias dispendidas em semanas inteiras de duro labor, de esforços em busca do bem-estar próprio e da coletividade?

Vivem, apenas, na nossa recordação, as reuniões sociais, os bailes onde a cerveja crioula imperava em cada mesa, farta e barata, sobre os balcões dos bares, iluminando o geral contentamento, que se traduzia em cantos e vivas, de mistura com as polcas e valsas das orquestras de sopro, entre as quais sobressaíam as que tinham por mestres o Lindner, o Ruedige: e o singular Augusto Werner, cujo piston, assoprado por possantes bochechas fazia estremecer as vigas dos salões, cobertas de bandeirinhas de papel de seda multicor.

Registrar tudo isso, com o colorido próprio, seria tarefa para gente de maior sensibilidade artística que a nossa. Dado mais às pesquisas que às rememorações sentimentais, procuraremos, nestas linhas, traçar um ligeiro histórico das cervejarias blumenauenses, em simples enumeração de fatos e datas, deixando para os artistas da inteligência a face emocional, afetiva e poética de tão interessante tema.

Vindos da velha Germânia, onde o uso da cerveja era tradição das mais antigas, um quase culto, era natural, também, que os colonos agrupados no estabelecimento fundado pelo dr. Blumenau, pensassem como o herói de Shakespeare na “Twelfth night”:

“Dost thou think, because thou art virtuous, there shall be no more cakes and ale?”

“Pensas, por acaso, porque és virtuoso, que não deva haver mais bolos e cerveja?”

Em 1858, veio juntar-se aos colonos alemães que construíram, à margem do Garcia, a sede da colônia Blumenau, um imigrante de trinta anos de idade, natural de Brusnvique, o condado alemão de onde também procedia o fundador.

A esposa de Hosang, HELENA BRANDES, quando ainda noiva, trajando a elegante indumentária da época

Chamava-se Heinrich Hosang. Homem ativo e empreendedor, não limitou suas ocupações ao amanho da terra. Pensou logo na criação de uma indústria de cerveja, de que trouxera prática do velho mundo. E tão logo viu possibilidades de suficiente consumo para a produção prevista, e depois de ter construído sua casa na atual rua São Paulo (casa que ainda existe) e de ter se casado com Helena Brandes, instalou, nos fundos de sua residência, a sua pequena indústria.

Isso se deu em 1860, quando Blumenau contava, apenas, pouco mais de 950 moradores, agrupados em 190 famílias e outras tantas casas de moradia, das quais só umas sessenta mereciam esse nome, pois, as outras, não passavam de ranchos cobertos de palha.

O terreno adquirido per Hosang tinha 150 geiras e custara 450$000, equivalentes a Cr$ 450,00 que foram pagos à vista. Não se tendo, no momento de efetuar o pagamento, conhecimento, ainda, do regulamento da colônia (que naquele mesmo ano de 1860 passara para o domínio do governo imperial) e que concedia o desconto de 12% sobre o preço de terras pagas à boca do cofre, Hosang em 1867, requereu lhe fosse devolvida a importância que pagara a mais.

A fábrica de Hosang prosperou. De ano para ano, foi crescendo o consumo da bebida que preparava e que era a preferida no comércio local.

O casal Heinrich Hosang teve cinco filhos: Elisa, depois casada com Alvin Schrader (que chegou ao posto de superintendente municipal, tendo governado Blumenau por três quatriênios consecutivos); Oto, casado com Clara Odebrecht; Clara, casada com o conde Von Wetarp; Francisco, casado com Ana Maschke; e Helena que se casou com Hermann Schossland.

Hosang esteve à frente da sua indústria até 1888, quando faleceu com 60 anos de idade.

Seus herdeiros guardam, ainda, curioso livro de registro de vendas de cerveja, de 1880 a 1881, a comerciantes e a particulares e onde se colhem dados interessantes a respeito dos consumidores da nutriente bebida, naquela época.

Assim, verifica-se, desse livro, que a Sociedade de Atiradores, de que era zelador o sr. Francisco Lungershausen, consumiu, só no primeiro daqueles anos, 7.722 garrafas da cerveja fabricada por Hosang, fora a de outras marcas que já havia na colônia, o que representa uma média de 22 garrafas diárias.

Maurício Holetz, dono de hotel e bar, era outro grande freguês da cerveja Hosang: cerca de 300 garrafas por mês. Os negócios do Reinhardt, do Fernando Schrader, do Henrique Probst, do Sutter, do W. Scheeffer, do Victor Gaertner, do Paulo Hartmann, do Stein, do Wegener, do Beyer, do Fiedler, do Asseburg, do Rabe, do Schreiber, do Paupitz, do H. Kestner do H. Hering, do Guilherme Engelke do Jens Jensen e de muitos outros, espalhados pelo interior da colônia, eram outros tantos revendedores importantes.

Uma espiada indiscreta às páginas do livro do registro de vendas, revela-nos particularidades interessantes. Por exemplo: o dr. Valloton, que era o médico da colônia, não era muito sóbrio no consumo de cerveja: mais de duas garrafas por dia. O engenheiro Krohberger, contentava se com uma só, diariamente. O dr. Eberhardt, outro médico, farmacêutico e, depois, agente do correio, era mais moderado. O dr. Wigando Engelke, não lhe ficava atrás: 32 garrafas em dezembro, naturalmente para as festas do Natal. O dr. Vitorino de Paula Ramos, chefe do Comissariado de Terras também contentava-se com uma garrafa por dia, assim como o dr. F. P. da Costa Moreira, juiz municipal. Ao escrivão Gloeden bastavam 6 garrafas por mês. A família do dr. Blumenau, em seis meses, consumiu 126 garrafas de cerveja do Hosang. Deixemos, porém, indiscrições de lado.

Depois do falecimento de Heinrich Hosang, a viúva, auxiliada por seu filho Oto, continuou à frente da fábrica, com a mesma eficiência e o mesmo sucesso anterior, até que, em 1898, o filho do casal, Francisco e o genro, Hermann Schossland, associados, passaram a dirigir a cervejaria, sob a razão social de Schossland & Hosang.

Em 1906, Francisco Hosang assumiu, sozinho, a responsabilidade pela firma, até 1923 quando, por motivo de doença, viu-se obrigado a fechar a fábrica, vendendo todo o acervo, material e maquinismos, à firma Bock, de Nova Breslau, atual Presidente Getúlio, onde ainda prestaram serviços por longos anos.

É dessa última época, o rótulo da “Cerveja Victória” que ilustra este trabalho e que custava 300 réis a garrafa. Era, como as demais, das chamadas “marca barbante” porque as garrafas, em vez de fechadas com as tampinhas de metal, como atualmente se usa, eram obturadas com rolhas de cortiça. Um fio de barbante, passado sobre as rolhas e amarrado ao gargalo das garrafas, assegurava maior resistência aos efeitos da fermentação da bebida.

De 1862 em diante, outros fabricantes de cerveja existiram em Blumenau; parece, entretanto. que não chegaram a organizar indústria, com alguma significação, pelo volume de produção. Em relatórios do dr. Blumenau, este dá como existindo na colônia, em vários anos, cerca de 10 fábricas de cerveja. Naturalmente, tratava-se de pequenos manipuladores da bebida, espalhados por toda a colônia, servindo a uma freguesia reduzida.

Outra cervejaria importante de Blumenau foi a de Carlos Rischbieter, conhecida por “Rischbieter Brauerei”, estabelecida ao sopé do morro da Bela Vista, por volta de 1875 e que, anos depois, foi adquirida por Walter Berner, que viera de Joinville e que continuou no ramo, até época recente.

A propósito dessa fábrica, demos a palavra ao professor Max Humpl. Este educador foi professor, por dilatados anos, da escola particular de Itoupava-Sêca, dando aulas e tendo residência no edifício, hoje ocupado pelo Grupo Escolar “Machado de Assis”. Homem inteligente e de suficiente cultura, nutria acentuado gosto pelo estudo do passado blumenauense. Auxiliado pela esposa, dotada de invulgar aptidão para o desenho, elaborou um magnífico trabalho sobre os primeiros moradores do bairro, que vai perdendo, gradativamente, o nome de “Altona”, dado pêlos seus povoadores (por provirem daquela cidade alemã, ligada ao porto de Hamburgo) para firmar-se na designação de “Itoupava-Sêca” pela qual já era conhecido, antes mesmo da vinda do dr. Blumenau.

Esse trabalho, a que foi dado o título de “Crônica de Altona” foi escrito em alemão, ilustrado com muitas fotografias antigos e com desenhos e iluminuras de acentuado bom-gosto. Encontrava-se no arquivo da prefeitura de Blumenau e foi, infelizmente, consumido pelo incêndio causador da completa destruição de todo o acervo histórico do município.

Ainda bem que essa admirável e paciente pesquisadora, dona Christiana Deeke Barreto, copiou e traduziu a parte da crônica referente à família Rischbieter, em que se entrosam os seus ascendentes, salvando, assim, parte do trabalho de Max Humpl.

No propósito de tirar do esquecimento, e mesmo de eventual perda, aproveitamos a autorização, que nos deu a nossa distinta colaboradora, para transcrever, aqui na íntegra, a mencionada parte do escrito do professor altonense, o qual inclui a história da cervejaria Rischbieter e dados genealógicos da família, a que se acham ligados elementos em evidência na vida política, econômica e cultural do município:

No dia em que a bisávó Rischbieter completava, em 1905, o seu nonagésimo aniversário. Da esquerda para a direita. De pé: Alvina Clasen, Carlos Rischbieter, Wilhelm Rischbieter, Maria Rischbieter, Rosália, casada com Hertel, elisa, casada com Lueders. Sentados: Augusta, casada com Baumgarten e Charlote Rischbieter, a nonagenária, bisavó de Carlos Rischbieter. O bisavô, Heinrich faleceu em 1877. Charlotte, nata Alms, nascida em 1815, faleceu em Blumenau em 1914

Junto ao sopé do “Boa Vista” começa, com a Cervejaria Rischbieter a nossa Altona. Aproximamo-nos do homem, apoiado em uma bengala à la “velho Fritz” (Frederico Rex, da Prússia), com o inevitável cachimbo entre os dentes, expressão benévola no rosto sadio, o proprietário daquelas construções, Carlos Rischbieter que, no bonito bar da sua cervejaria, nos conta, prazeirosamente, a história da sua vida e da sua casa, apresentando-nos, assim, em horas bem agradáveis, um retrospecto dos primeiros dias dos moradores, aqui recém-estabelecidos, pois, “contar” é o seu prazer, e com razão, pois ele tem jeito para isso.

Tio Carl nasceu a 12 de setembro de 1849 em Bienenbuettel, perto de Hannover, na Alemanha, tendo aqui chegado aos 12 anos de idade, em 29 de dezembro de 1861, em companhia de seus pais Ludwig e Charlotte Rischbieter, de um irmão e seis irmãs.

De canoa, como todos os imigrantes da época, subiram o rio até a propriedade adquirida em Salto do Norte, na margem esquerda do Itajaí-Açu, defronte à atual ponte do Salto, onde Carl Rischbieter, durante doze anos, experimentou todas as agruras e prazeres da vida dos imigrantes pioneiros, tendo, depois, partido para o Rio de Janeiro, onde foi aprender a profissão de cervejeiro.

De volta, instalou-se ele, entre 1875 a 1877, perto do seu atual estabelecimento, na propriedade de Carlos Probst, fronteira às terras de Augusto Werner, com a sua primeira cervejaria, até que adquiriu, de Augusto Blomeier, a propriedade conhecida como “dos Ebert”, onde levantou as construções da atual fábrica e dependências, menos a saleta-bar, que só foi construída em 1907, como necessidade absolutamente “edificante”.

Em 1879, casou-se Carl Rischbieter com Hedwig Clasen, filha do serralheiro, estabelecido em Altona, Heinrich Clasen e de sua esposa Augusta, nascida Mathes. Tendo esta falecido, casou-se Heinrich Clasen, em segundas núpcias, com Alvina Rischbieter, irmã de Carl, tornando-se este, cunhado do sogro e da própria irmã que, por sua vez, ficou sogra e cunhada do irmão.

O irmão de Carl Rischbieter, de nome Wilhelm, havia alugado uma casinha de madeira, construída em 1863, próxima à grande figueira, ainda existente, onde ele, desde 1866, se instalara com uma vendinha e fábrica de vinagre, até que de lá se mudou para uma propriedade adquirida mais próxima à sede, pertencente, hoje, a Hartwig Rischbieter (isto em 1918. Hoje pertence aos herdeiros de Pedro Alcântara Pereira). A casinha histórica, perto da figueira, havia sido antes uma bodega de cachaça, que tinha o nome de “Waldschnepfe” (Codorna do mato), servindo de ponto de reunião dos primeiros moradores da colônia, que até ali chegavam subindo o rio, de canoa, ou pelas íngremes picadas de caçadores. Posteriormente, morou nela o sapateiro Ruehr, durante uns oito anos, tendo sido salvo, em canoa, na enchente de 1880, quando a “Waldschnepfe” foi totalmente submersa. Mais tarde, e por alguns anos ainda, estabeleceu-se na casinha um certo Steinert, com outra bodega.

Iniciou, então, Carl Rischbieter o saneamento dos pântanos nas baixadas da sua propriedade, perto da figueira, tendo colaborado também, ativamente, no melhoramento da estrada geral (hoje rua São Paulo), construída na sétima década do século passado, a qual, especialmente no trecho “dr. Sappelt” (imediações da atual praça “dr. Fritz Mueller”) e nos “Stich” (adjacências da atual esquina das ruas São Paulo e Almirante Barroso) era traçada sobre terreno pantanoso e onde inúmeras carradas de pedras foram traçadas pela espessa camada de lodo.

No ano de 1897, levantou Carl Rischbieter, junto à casa de enxaimel, já construída em 1860 por Ferdinand Ebert, demolida apenas recentemente (1914) e que, até então, servira de moradia aos Rischbieter a atual casa residencial, em situação esplêndida, à beira do rio, rodeada de árvores frutíferas, palmeiras raras e de bem cuidados jardins. À direita, encontra-se uma pedreira de rocha vermelha, que, mais ou menos, até 1910, foi explorada, tirando-se de lá, anualmente, 200 a 300 metros cúbicos de pedras. Durante a construção da Estrada de Ferro Santa Catarina, em 1907, de Blumenau à estação Hansa (no atual município de Ibirama) forneceu a pedreira, mais ou menos, um mil metros cúbicos de pedras para a construção de obras de arte.

A cervejaria prosperou, tendo sido adaptada à eletricidade em 1913.

“Bavária” (clara) e “Favorita” (escura), além da marca “Schwartzbier”, são produzidas na proporção de 100.000 garrafas anualmente, mais ou menos.

Carl Rischbieter progrediu, tornando-se cidadão abastado, conceituado e de influência na vida da comuna, onde desfruta, pelo gênio alegre, despretenciosa amabilidade e retidão inata: de grandes simpatias. Como primeiro e segundo presidente, durante longos anos, da sociedade de Atiradores de Blumenau, fundada em 1859, foi ele a alma das diversões promovidas por essa agremiação, nos “velhos bons tempos”.

Sorte e azar experimentou Carl Rischbieter, intensamente na sua vida. Tendo tido a rara felicidade de assistir, no ano de 1885, as bodas de ouro de seus pais, feriu-o doloroso golpe a 7 de abril de 1906, quando perdeu SEU filho mais velho, Adolfo, nascido em junho de 1880, cuja vida, cheia de esperanças, apagou-se, vítima de um acidente de equitação.

A 19 de janeiro de 1914 faleceu, aos 99 anos de idade, sua mãe Charlotte Rischbieter, nascida em Alms, que era a pessoa mais idosa de Altona.

Em 1904, a 29 de agosto, quando se realizou, também, o casamento de sua filha Ema, com José Deeke, celebrou Carl Rischbieter as bodas de prata com a sua esposa Hedwig, exemplo de legítima dona de casa e mãe, no estilo germânico, cujas qualidades podem ser as simbolizadas na “Canção dos sinos” de Frederico von Schiller, no seguinte trecho:

“…E no íntimo do lar age
A prendada dona de casa,
Governando, com eficiência
Ensinando as meninas,
Reprimindo os rapazes.
Movendo, sem descanso
As mãos ativas,
Aumentando as posses
Com senso organizador…”

Assim, receberam sob sua orientação, três filhos e cinco filhas, uma educação esmerada, enquanto o pai lhes proporcionava boa instrução escolar. Amparava ele, concretamente, a escola nas proximidades de sua casa, onde lecionava, durante muitos anos, seu cunhado Carlos Hertel, em benemérita atividade professoral, denominada, na época “Escola da Velha”. (Devido à próxima entrada para o vale da “Velha”, pela estrada do ribeirão Jararaca, “Scharackenbach”, na gíria blumenauense, hoje adulterado para “Jaracumbá”).

A conceituada família Rischbieter está espalhada por todo o município de Blumenau (1918, então incluindo a região de Gaspar até a zona serrana, Trombudo, Taió, Pouso Redondo, Ibirama, Timbó, Rio do Testo, etc.), como está intensamente ramificaria, atingindo as ligações famílias aqui arraigadas, demonstra o seguinte quadro:

CARL RISCHBIETER, casado com Hedwig Clasen, natural de Itajaí:
Filhos: Luís Rischieter, casado com Olga Ebert, Altona.
Madalena, casada com Willy Scheeffer, Blumenau.
Elly, casada com Hermann Maas, Altona.
Ema, casada com José Deeke, Hamônia (Ibirama).
Inês, casada com Leopoldo Rabe, Blumenau.
Frida, casada com Teófilo Zadrozny, Blumenau.
Henrique (casou em 1922 com Elena Hackländer).

Irmão WILHELM RISCHBIETER:
Do primeiro matrimônio com Ida Zesch:
Filhos: Hartwig, casado com Ana Labes, Blumenau.
Ana — casada com Henri-Eifert, Blumenau.
Charlotte — casada com Carl Budag, Velha.
Ida — casada com Franz Krueger, Blumenau.
Do segundo matrimônio com Ana Zesch, natural da Saxônia:
Gertrudes — casada com Hans Meier, Hamburgo.
Carlos — casado com Grete Delitsch, Joinville.

Irmã AUGUSTA RISCHBIETER, casada com Júlio Baumgartem (este Júlio Baumgartem era viúvo e teve, do primeiro matrimônio, 3 três filhos: Hermann, que casou com Maria Deeke; Inês, que casou com Teodoro Kleine e Júlio Baumgartem, casado em Porto Alegre e pai do nosso assinante sr. Victor Hugo Baumgartem, de Blumenau):
Filhos: Adolfo, casado com Margaret Gensly. Curitiba.
Walter, casada com Meta Wehmuth, Blumenau.
Alice, casada com o pastor Faulhaber, Alemanha.
Marta, casada com Reinoldo Anton — Blumenau.
Augusta e Emilia.

Irmã ELISA RISCHBIETER, casada com Frederico Lueders de Indaial (em segundas núpcias com Carl Ritter, de Porto Alegre)
Filhos: Arnoldo, casado com Maria Engelmann, de Joinville.
Emy — casada com Paulo Lange.” Até aqui o trecho da “Crônica de Altona”.

Temos, finalmente, a Cervejaria Jennrich, de Itoupava-Sêca, que por vários lustros, foi o ponto de reuniões alegres dos apreciadores de cerveja daquele bairro. Mesmo de Blumenau, não poucos apaixonados da loura bebida, se reuniam no bar, que Jennrich preparara num compartimento da fábrica, mobiliado a capricho, à moda das tradicionais “Bierstube” da legendária Munique, com os seus jarros e canecões de barro e porcelana lavrada, ostentando figuras e legendas, ora sérias, ora brejeiras, com chifres e cabeças de veado e de outros animais enfeitando as paredes.

Ali as horas decorriam céleres, em barulhentas tertúlias, pela noite a dentro, sob o estourar das rolhas bombardeando o teto, donde guirlandas pendiam. Ao alto da entrada, a decantada frase latina, que os leitores dos “Cadernos” já conhecem “Cerevisiam bibunt homines; coetera animantia bibunt ex fontibus”.

Quando a pressão subia além do normal, começavam as cantorias. A princípio, ordenadas, cadenciadas e harmônicas. Depois, e à proporção que o calor aumentava, iam a todas as escalas da desafinação, em sustenidos incríveis, ou em baixos tétricos e sepulcrais.

Oto Jennrich criara-se com a família Hosang (de cuja cervejaria se tornara auxiliar dedicado e operoso). Já homem maduro, estabeleceu-se por conta própria. Era, além de bom cervejeiro, homem de bastante leitura e tinha grande paixão pelas coisas do passado blumenauense. Assim é que, à própria custa, construiu, em terreno fronteiro ao da cervejaria, um pequeno sobrado em que instalou um museu. Ali se via uma infinidade de objetos de raro valor histórico e etnográfico, como flechas, arcos e outros apetrechos dos botocudos que infestavam o Vale do Itajaí; exemplares de plantas exóticas, coleções de insetos e de moedas, minerais, fotografias antigas, rótulos de produtos industriais, enfim uma série enorme de pequenas coisas relacionadas com os primeiros tempos da colônia, com os seus fundadores e povoadores, com as nossas riquezas naturais.

OTTO JENNRICH, interessante figura de industrial dos primeiros anos do município, a cujo desenvolvimento cultural prestou destacados serviços com a criação do “Museu Jennrich”.

O “Museu Jennrich” era tão ou mais conhecido e apreciado quanto a sua cerveja. Esta era vendida, sob vários nomes, como a “Estrela”, a “Polar”, a “Kulmbach”, preta, em meias garrafas. O seu custo era, geralmente, de 400 réis a garrafa.

Quando Adolfo Schmalz, Hans Lorenz e Victor Gaertner instalaram um cinema em Itoupava-Sêca, a entrada, que custava 1$200, dava direito a três garrafas de “Jennrich-Einfach”, bebidas no próprio salão de projeção, enquanto se apreciavam as fitas de Max iLnder, de Waldemar Psilander, quase sempre ao lado de Asta Nielsen.

Jennrich tinha as suas esquisitices e era de gênio reservado, pouco comunicativo, apesar de, não raro, ter que sentar-se à mesa dos apreciadores da sua cerveja e, com estes, afundar-se na conseqüente e comunicativa alegria. Andava quase sempre de tamancos. E quando era obrigado a usar sapatos, adquiria-os sempre de um ou dois números maiores que os dos pés, pois tinha verdadeiro pavor de senti-los molestados. Nunca se casou. Viciara-se no uso do cachimbo e do fumo em corda. Chegou, até, a idealizar e construir uma máquina para picar fumo. A esse respeito, conta-se que, certa feita, quando movimentava a sua máquina, fê-lo com tanta infelicidade, que decepou, totalmente, as duas primeiras falanges do indicador direito. Sem se alarmar grande coisa, embrulhou o pedaço do dedo num lenço e foi procurar o dr. Hugo Gensch para que este o repusesse no devido lugar. Verificando a impossibilidade de uma intervenção cirúrgica, o dr. Gensch pilheriou com o cervejeiro, dizendo-lhe que não ficasse triste, pois que aquele pedaço de dedo, depois de bem seco, daria um excelente limpador de cachimbo. Pois Jennrich teve a pachorra de fazer secar muito bem o pedaço do dedo e mostrava-o, frequentemente aos amigos, chamando-lhes, a atenção para a originalidade do instrumento que o médico lhe havia recomendado para desentupir o cachimbo.

Com a falange que lhe restava, Jennrich costumava fazer outras pilhérias, como metê-la, em parte, na narina, parecendo, assim, que ali havia metido o dedo todo, o que causava hilaridade aos amigos e o espanto nas crianças, que não podiam compreender como é que se podia enfiar um dedo inteiro no nariz.

Jennrich foi um cidadão prestimoso e o bairro em que desenvolveu a sua atividade, muito lhe deve do seu engrandecimento urbano e social.

A cervejaria de Otto Jennrich passou, mais tarde, para a responsabilidade da “Cervejaria Blumenauense”, em sociedade organizada por Schmalz & Thiede e foi, depois, incorporada ao patrimônio da Antartica Paulista.

Há memória, ainda, da “Cervejaria Schmidt”, que fora instalada em prédio nas proximidades da atual “Casa Flsch”, na rua 15. O proprietário, o sr. Schmidt, era sogro do dr. Bonifácio Cunha. Foi, entretanto, indústria que durou pouco tempo e que, parece, não teve desenvolvimento comercial. Pouco se sabe sobre ela, além de que o seu produto tinha pouca aceitação, sendo o seu proprietário conhecido pela alcunha de “Sauerbieronkel”, ou o “titio da cerveja azeda”.

A cerveja Schmidt tinha até um apelido depreciativo, impublicável, porque ao ser desarrolhada, emitia, com abundante espumarada, ruído característico e cheiro de fermento azedo. Pelo menos é o que a tradição nos legou.

Desapareceram, assim, as cervejarias blumenauenses. Mas a sua lembrança, ligada aos bons tempos coloniais e aos primeiros anos do município, permanecerá como a de um dos fatores que mais concorreram para amenizar as agruras da vida dos primeiros blumenauenses, pondo-lhes um pouco de alegria, de cordialidade saudável e generosa, nos anos atormentados dos começos da colonização.

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