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  • Hoje é Dia da Imprensa. Grandes merdas, pensará você.
  • Pode ser. Mas os jornalistas pelo menos temos motivos para comemorar.
  • O avanço das midias sociais e da internet é um alento para nosso futuro.
  • Quando a gente se aposentar, vamos desfrutar das mesmas vantagens que hoje são exclusivas dos vigias noturnos.
  • Vigia noturno ganha pouco. E o que acontece hoje com o vigia noturno? Quando se aposenta, ele vai trabalhar de vigia em depósitos de madeira, edifícios em construção ou vai ser porteiro de prédio sem carteira assinada até ser encontrado morto, aos 85 anos, num sábado de madrugada, sentado em sua cadeirinha, rádio ligado numa AM, por uma turminha que vem da balada.
  • Jornalismo é como a carreira de vigia noturno. A gente ganha pouco e tem uma profissão que pode continuar depois que a gente se aposenta.
  • Antes isso não acontecia.
  • Muitos de nós morriam sozinhos, abandonados, bêbados e depressivos sem nada pra fazer.
  • Com a internet a gente vai poder ficar em casa, atualizando site de cliente, colocando notas no blog dele e atualizando o Twitter da empresa.
  • Na velhice, vamos ser como o vigia noturno. Seremos úteis e teremos uma pequena renda extra para pagar nossos remédios de uso contínuo, o que seria impossível só com o dinheiro da aposentadoria.
  • Ficaremos atualizando coisas na internet , sentados em nossa cadeirinha, até os 85 anos.
  • Até que um dia, alguém, de madrugada, voltando da balada, resolve dar uma conferida no Twitter da empresa e percebe que ele não está sendo atualizado desde quinta-feira à tarde, quando inserimos nosso último e derradeiro post.
  • É evidente que uma vidente, evidentemente, prevê o futuro. Basualdo sabia disso. Ele estava feliz. Ia casar no dia 29 do outro mês, quando o apartamento de dois quartos deveria ficar pronto. Pra felicidade ser completa só faltava ele ser contemplado no consórcio do carro e ele pensava o tempo todo em comprar um Corsa 1.6, com aros de liga leve.
  • Andando na rua com os amigos, Basualdo encontrou a vidente e perguntou a ela como seria o futuro. A vidente disse a ele que ele ia casar no dia 29 do outro mês, ia morar num apartamento de dois quartos e ia comprar um Corsa 1.6, com aros de liga leve.
  • Basualdo ficou ainda mais feliz, nunca tivera tanta certeza de que o futuro seria como ele queria. De noite abriu a geladeira e foi atacado por um sapo gigante assassino. Era um sapo de um metro de altura. O sapo gigante assassino arrancou a cabeça do Basualdo, voltou para a geladeira, apagou a luz e desapareceu.
  • Os amigos botaram a culpa na vidente, só podia ser coisa dela, afinal, como  é que ela sabia tudo sobre o Basualdo? Aí tem. E então enforcaram ela na figueira da pracinha.

Amoral da história: prever o futuro até que é fácil. Difícil é garantir que ele aconteça.

  • Fui ver Predadores com meu filho, no sábado.
  • Nossa avaliação é que o filme é muito bom.
  • Muitas cabeças arrancadas e muito sangue verde jorrando, já que os predadores espaciais malvadões têm o sangue verde. O bom e velho Robert Rodriguez não nos decepcionou, montando um roteiro altamente violento e criativo.
  • Nossa única reclamação é com relação ao nosso assassino mercenário favorito do cinema, o Danny Trejo. Ele morre logo no começo, de joelhos, completamente indefeso, com um tiro pelas costas que arranca metade da cabeça dele.
  • E o que é pior: ele é morto por uma mulher.
  • Um fim humilhante e injusto para nosso ídolo durão.
  • Meu filho indignou-se ainda mais pelo fato de que um médico psicopata, sem armas, foi o último do bando de desajustados a morrer no filme, enquanto que o personagem de Danny Trejo, com duas metrancas e um monte de punhais, morreu bem antes.

Se você não conhece a arte e o talento do Danny Trejo, separamos abaixo uma de suas obras primas, o sensacional Machete:

  • Fui, talvez, o único a ouvir de três jornalistas o relato sobre os ataques sexuais sofridos por elas por parte de um colega em comum.
  • Os fatos ocorreram na primeira metade da década de 80, quando eu trabalhava na redação de uma empresa de comunicação cujo nome não vou escrever aqui, mas que muita gente sabe, principalmente uma parte dos que nela hoje trabalham e a quase totalidade dos que nela trabalharam à época.
  • Alguns detalhes chegam a ser engraçados.
  • Os fatos são absolutamente verdadeiros mas, para contar as histórias, uso nomes fictícios. Não quero ser processado pelo taradão que atacou minhas colegas e nem quero apanhar dos maridos delas.

OS PERSONAGENS

  • São quatro os personagens dessas histórias. O vilão malvado será chamado de Alceste, o Insuspeito. Insuspeito porque ninguém poderia imaginar que dele pudessem, em tempo algum, partir atitudes minimamente suspeitas no que concerne a aspectos morais, tamanhas suas demonstrações de conservadorismo em sua vida pessoal e profissional.
  • As vitimas são três jornalistas que trabalharam comigo naquela época e que também recebem aqui nomes fictícios. Uma amasiada, que vou chamar de Roberta Escandalosa, uma solteira, a Renata Puritana, e uma casada, Sofia, a Insofismável.

O PRIMEIRO ATAQUE

  • Roberta Escandalosa veio de uma cidade do Sul de SC.
  • Lembro dela por dois detalhes. Tinha por hábito não usar sutiã e costumava sentar no tampo da minha mesa, curvando-se em minha direção, com os peitos estrategicamente posicionados no centro do meu campo de visão.
  • Além dos peitos, outra coisa chamava a minha atenção: manchas nos braços. Roberta dizia que apanhava do sujeito com quem morava, pagando aluguel, no Beco Araranguá.
  • Roberta, aliás, diversas vezes sentara-se sobre a minha mesa para reclamar do tal sujeito. O que ela queria que eu fizesse? Que desse um tiro na cara dele?
  • Na verdade, tanto eu quanto o resto da turma classificávamos Roberta Escandalosa como uma mulher volúvel, pra dizer o mínimo.
  • Uma noite, eu e Roberta Escandalosa fomos os últimos a sair da redação, lá pelas 8 da noite. Chovia intensamente, como sói acontecer em Blumenau.
  • Quando me dirigia ao motorista de plantão para que me levasse em casa, Alceste, o Insuspeito, ofereceu-me carona.

─     Posso dar carona também para a aquela moça que estava falando com você – emendou.

  • Alceste me deixou em casa minutos depois. Seu carro sumiria na chuva logo em seguida, com Roberta Escandalosa sentada no banco do passageiro.
  • No outro dia, a surpresa. Roberta Escandalosa se aproxima de mim e diz:

─     Tonet, sabe a carona de ontem? O Alceste me atacou, me agarrou, tentou me beijar e agarrou os meus peitos quando parou na frente da minha casa. Não sei como consegui fugir.

  • Na hora, pensei carcomigo: essa vagabunda tá aprontando alguma. Vai querer sacanear o Alceste, coitado, logo ele, um cara completamente insuspeito. Isso vai dar merda.
  • Roberta Escandalosa retomou o assunto comigo umas duas ou três vezes. Mas eu sempre pensava algo na linha do se fosse eu, também te atacava.
  • Algum tempo depois, Roberta voltou para o Sul do estado. Lá se foram ela, suas blusas sem sutiã e as manchas arroxeadas das porradas do sujeito que vivia com ela. Nunca mais a vi.

O SEGUNDO ATAQUE

  • Quando eu soube que Roberta, a Escandalosa, havia ido embora, fiz um comentário despretensioso com Renata Puritana, num corredor qualquer: “Bem, pelo menos ela não vai mais encher o meu saco dizendo que Alceste, o Insuspeito, atacou ela sexualmente”.
  • Renata Puritana arregalou os olhos:

─     O quê? Alceste, o Insuspeito atacou ela? Tonet, ela disse a verdade!. Ele me atacou duas vezes, sabia? Duas vezes!!”.

  • Renata me deu detalhes. Numa ocasião, Alceste Insuspeito ofereceu carona a ela, entrou numa rua sem saída e apalpou-lhe os seios. No dia seguinte ele a procurou e pediu desculpas. Dias depois, ofereceu nova carona, dizendo que estava arrependido. Pois desta vez a atacou em frente à casa dela.

─     Tonet, ele é louco. Ele é completamente louco. – E eu disse que não podia, como logo o Alceste?, ele era totalmente insuspeito.

  • Bem, a coisa ficou por isso mesmo.
  • Mais ou menos um ano depois, Alceste saiu da empresa. Renata Puritana deve ter ficado mais uns dois ou três anos e saiu também.

O TERCEIRO ATAQUE

  • Sofia, a Insofismável, trabalhava comigo na época dos acontecimentos. Mas nunca me disse nada a respeito de algum ataque de Alceste, o Insuspeito e nem eu cheguei a comentar alguma coisa ela.
  • Das três vítimas do Alceste, Sofia é a única com quem mantenho contato até hoje.
  • Dois ou três anos atrás, acho que foi em 2008, eu e minha mulher encontramos Sofia Insofismável na praia, com o marido dela. Sentamo-nos para conversar. Já se haviam passado mais de 20 anos desde que eu tomara conhecimento das taras do Alceste Insuspeito.
  • Numa dessas coincidências, Sofia Insofismável comentou que havia visto o Alceste Insuspeito recentemente. Então automaticamente comentei:

─     Bom, com a idade, pelo menos ele deve ter parado de atacar a mulherada por aí.

  • Sofia, apesar de insofismável, arregalou os olhos igual à Renata Puritana e me disse:

─     Como é que tu sabe? Eu nunca te contei. Quem é que falou pra ti?

  • Na hora eu senti que tinha alguma coisa estranha aí e pensei, ora, ora, só faltava ele ter atacado a Sofia também.

─     Não vai me dizer que ele te atacou também.

─     Não me diz que ele andou atacando outras!

  • Contei para Sofia os dois outros casos. E então ela me contou o caso dela.

─     Um dia eu estava sem carro, ia pedir pro motorista me levar, mas o Alceste insistiu em me dar carona. Quando parou na frente da minha casa, Alceste começou a me chamar de gostosa, disse que tinha tesão por mim e eu fiquei sem saber o que fazer, disse alguma coisa, abri e porta e saí do carro.

  • Sofia fuma até hoje como se fosse uma condenada. Eu só fumo quando tomo cerveja, e se alguém me der um cigarro. Minha mulher e o marido dela não fumam. Quando ocorreu esse diálogo, eu estava fumando com Sofia e por isso estávamos um pouco afastados da minha mulher e o marido dela, que conversavam sem poder nos ouvir.

─     Quando eu estava na calçada – continuou Sofia – o Alceste deu a volta no carro, encostou-se atrás de mim e me agarrou; ele me encoxou completamente excitado, enquanto meus cachorros latiam do lado de dentro da cerca e a silhueta do meu marido aparecia na porta que se abria. Pára de rir,Tonet, isso não é engraçado…

  • Me esforcei pra fazer cara de sério. Imaginar Alceste, o Insuspeito, com aquele jeitão de Lineu da Grande Família, atacando minha colega na calçada em frente à casa dela, com dois Dálmatas latindo no quintal, era engraçado.

─     Quando meu marido abriu a porta ele já tinha me largado. Tive que conviver com o Alceste muito tempo ainda, nunca tocamos no assunto, mas era constrangedor.

  • Pois bem, minha gente, a história é essa, a história de três ataques de um sujeito insuspeito a três jornalistas, ataques, sem nenhuma conseqüência além do susto e da vergonha das vítimas.
  • Pensando bem, foram casos bem típicos do jeito de ser e de viver do Alceste, o Insuspeito.Tava na cara. Ele era um sujeito que reunia todas as condições para fazer merda quando o assunto fosse mulher.

Estou participando da reunião entre a CBF e a Globo para ver quem será o novo técnico da seleção. Como 1014 será a Copa da Globo, a CBF não quer correr o risco de ter a seleção comandada por uma mula ferrada nas quatro patas como o Dunga.

Veja a lista de exigências da Globo, segundo a qual o novo técnico, durante a Copa, terá que cumprir a seguinte agenda:

  • Cozinhar um prato qualquer no programa da Ana Maria Braga, fingindo rir pelo menos duas piadas ao Louro José.
  • Participar de um quadro do Zorra Total.
  • Ajudar na reforma de um Maverick v.8  no Caldeirão do Hulk.
  • Ser jurado no Dança dos Famosos.
  • Participar, calado, de dois programas do Faustão durante duas horas
  • Ficar vestido de Paquita no programa da Xuxa com a Sacha no colo
  • Participar de um quadro do Fucker and Sucker no Caceta
  • Suportar dois blocos do Jô Soares (os técnicos mais cotados se reuniram e pedem que seja apenas um bloco, dado o desgaste psicológico)
  • Dançar o Rebolation versão sapateado ao lado da Fátima Bernardes

Dia 16 de julho,minha terceira frase nas dez melhores twittadas da semana do www.lista10.org.

Dia 25 de junho fui parar pela segunda vez na lista de melhores twittadas da semana pelo site www.lista10.org.

No dia 2 de abril de 2010 o www.lista10.org publicou sua segunda lista com as melhores twittadas da semana.

Uma frase minha apareceu lá. Só soube agora.

  • Você gostaria que o Polvo Paul fizesse alguma previsão pra você?
  • Nesse link, você pode brincar com previsões do polvo vidente: http://especiales.lainformacion.com/polvo-paul/
  • Eu pedi para o Paul prever quem será a governadora de SC: Angela ou Ideli.
  • Pelo menos aqui, deu Angela:

  • Finalmente revelado o que houve no intervalo do jogo entre Brasil e Holanda.
  • Dunga estava animado com a vitória parcial.
  • Tão animado que reuniu os jogadores e disse:
    - Pessoal, vamos agora ver um vídeo com as previsões do Paul para o segundo tempo.
  • O vídeo que eles viram tá aí embaixo.

Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Que mais quer, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe-o bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pôde ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já não tem importância.  

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Extraído do conto Manual de Instruções, do livro Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar. Tradução de Gloria Rodrigues em Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal, organizado por Flávio Moreira da Costa, Ediouro, 7ª Edição, 2001.

  • Pense nisto: quando dão a você de presente um relógio estão dando um pequeno inferno enfeitado, uma corrente de rosas, um calabouço de ar. Não dão somente o relógio, muitas felicidades e esperamos que dure porque é de boa marca, suíço com âncora de rubis; não dão de presente somente esse miúdo quebra-pedras que você atará ao pulso e levará a passear. Dão a você – eles não sabem, o terrlvel é que não sabem – dão a você um novo pedaço frágil e precário de você mesmo, algo que lhe pertence mas não é seu corpo, que deve ser atado a seu corpo com sua correia como um bracinho desesperado pendurado a seu pulso. Dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar-lhe corda para que continue sendo um relógio; dão a obsessão de olhar a hora certa nas vitrinas das joalherías, na notícia do rádio, no serviço telefônico. Dão o medo de perdê-lo, de que seja roubado, de que possa cair no chão e se quebrar. Dão sua marca e a certeza de que é uma marca melhor do que as outras, dão o costume de comparar seu relógio aos outros relógios. Não dão um relógio, o presente é você, é a você que oferecem para o aniversário do relógio.

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Extraído do conto Manual de Instruções, do livro Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar. Tradução de Gloria Rodrigues em Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal, organizado por Flávio Moreira da Costa, Ediouro, 7ª Edição, 2001.

  • Ninguém terá deixado de observar que freqüentemente o chão se dobra de tal maneira que uma parte sobe em ângulo reto com o plano do chão, e logo a parte seguinte se coloca paralela a esse plano, para dar passagem a uma nova perpendicular, comportamento que se repete em espiral ou em linha quebrada até alturas extremamente variáveis. Abaixando-se e pondo a mão esquerda numa das partes verticais, e a direita na horizontal correspondente, fica-se na posse momentânea de um degrau ou escalão. Cada um desses degraus, formados, como se vê, por dois elementos, situa-se um pouco mais acima e mais adiante do anterior, princípio que dá sentido à escada, já que qualquer outra combinação produziria formas talvez mais bonitas ou pitorescas, mas incapazes de transportar as pessoas do térreo ao primeiro andar.
  • As escadas se sobem de frente, pois de costas ou de lado tornam-se particularmente incomodas. A atitude natural consiste em manter-se em pé, os braços dependurados sem esforço, a cabeça erguida, embora não tanto que os olhos deixem de ver os degraus imediatamente superiores ao que se está pisando, a respiração lenta e regular. Para subir uma escada começa-se por levantar aquela parte do corpo situada embaixo à direita, quase sempre envolvida em couro ou camurça e que salvo algumas exceções cabe exatamente no degrau. Colocando no primeiro degrau essa parte, que para simplificar chamaremos pé, recolhe-se a parte correspondente do lado esquerdo (também chamada pé, mas que não se deve confundir com o pé já mencionado), e levando-a à altura do pé faz-se que ela continue até colocá-Ia no segundo degrau, com o que neste descansará o pé, e no primeiro descansará o pé. (Os primeiros degraus são os mais dificeis, até se adquirir a coordenação necessária. A coincidência de nomes entre o pé e o pé torna dificil a explicação. Deve-se ter um cuidado especial em não levantar ao mesmo tempo o pé e o pé.)
  • Chegando dessa maneira ao segundo degrau, será suficiente repetir alternadamente os movimentos até chegar ao fim da escada. Pode-se sair dela com facilidade, com um ligeiro golpe de calcanhar que a fixa em seu lugar, do qual não se moverá até o momento da descida.

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Extraído do conto Manual de Instruções, do livro Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar. Tradução de Gloria Rodrigues em Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal, organizado por Flávio Moreira da Costa, Ediouro, 7ª Edição, 2001.

  • As formigas vão comer Roma, já se disse. Elas andam entre as lajes; loba, que fio de pedras preciosas secciona sua garganta? Por algum lado saem as águas das fontes, as Iousas vivas. Os trêmulos camafeus que no meio da noite criticam a história. As dinastias e as comemorações. Seria preciso achar o coração que faz latejar as fontes para preveni-lo das formigas e organizar nesta cidade de sangue intumescido. De cornucópias eriçadas como mãos de cegos. Um rito de salvação para que o futuro lixe os dentes nos montes, se arraste manso e sem força, totalmente sem formigas.
  • Primeiro procuraremos a orientação das fontes. O que é fácil porque nos mapas coloridos, nas plantas monumentais, as fontes também têm abastecedores e cascatas de cor azul-celeste; só que é preciso procurá-las muito e envolvê-las num recinto de lápis azul. Não vermelho, pois um bom mapa de Roma é vermelho como Roma. Por cima do vermelho de Roma o lápis azul marcará um recinto roxo em torno de cada fonte. E agora temos certeza de que as pegamos todas e conhecemos a folhagem das águas.
  • Mais difícil. Mais obscuro e sigiloso é o mister de perfurar a pedra opaca sob a qual serpenteiam as veias de mercúrio, compreender à força de paciência a cifra de cada fonte. Montar nas noites de lua penetrante uma guarda apaixonada junto dos vasos imperiais. Até que de tanto sussurro verde. de tanto borbulhar de flores. Comecem a nascer os caminhos. As confluências, as outras ruas, as esquinas. E sem dormir segui-las com varas de avelã em forma de forquilha, de triângulo, com duas varinhas em cada mão, com uma só agarrada entre os dedos fracos, mas tudo isso invisível à polícia e à população amavelmente temerosa, andar pelo Ouirinal, subir ao Campidoglio, correr aos gritos pelo Pincio, aterrorizar com uma aparição imóvel como um balão de fogo a ordem da Piazza della Esedra, e assim extrair dos surdos metais do solo a nomenclatura dos rios subterrâneos. E não pedir ajuda a ninguém, nunca.
  • Depois se irá percebendo como nessa mão de mármore esfolado as veias correm em harmonia, por prazer de águas, por artifício de jogo, até se aproximar pouco a pouco, confluir, enlaçar-se, transformar-se em artérias, derramar-se duras na praça central onde palpitam o tambor de vidro líquido. a raiz das copas pálidas, o cavalo profundo. E logo saberemos onde está, em que fundo de abóbadas calcárias, entre miúdos esqueletos de lèmures, bate seu tempo o coração da água.
  • Será dificil saber, mas se saberá. Então mataremos as formigas que cobiçam as fontes, calcinaremos as galerias que esses mineiros horríveis tem para aproximar-se da vida secreta de Roma. Mataremos as formigas só em chegar antes à fonte central. E partiremos num trem noturno, fugindo a tubarões vingadores, sentindo-nos obscuramente felizes, misturados a soldados e freiras.

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Extraído do conto Manual de Instruções, do livro Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar. Tradução de Gloria Rodrigues em Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal, organizado por Flávio Moreira da Costa, Ediouro, 7ª Edição, 2001.

  • Numa aldeia da Escócia vendem-se livros com uma página em branco perdida em algum lugar do volume. Se o leitor desembocar nessa página ao soarem as três da tarde, morre.
  • Na Praça do Quirinal, em Roma, há um lugar conhecido pelos iniciados até o século XIX e do qual, em noites de lua cheia, vêem-se mexer lentamente as estátuas dos Dióscuros que lutam com seus cavalos empinados.
  • Em Amalfi, no fim da zona costeira, há um dique que penetra pelo mar e pela noite. Ouve-se um cão Iatir para além do último farol.
  • Um senhor está pondo pasta nos dentes na escova. De repente, vê, deitada de costas, uma diminuta imagem de mulher, feita de coral ou talvez de miolo de pão pintado.
  •  Ao abrir o armário para apanhar uma camisa, cai um antigo calendário que se desmancha, se desfolha, cobre a roupa branca com milhares de sujas traças de papel.
  • Sabe-se de um caixeiro-viajante que começou a sentir dor no pulso esquerdo, justo debaixo do relógio de pulso. Ao arrancar o relógio, o sangue jorrou: a ferida mostrava os sinais de uns dentes muito finos.
  • O médico acaba de nos examinar e nos tranqüiliza. Sua voz grave e cordial precede os remédios, cuja receita ele escreve agora sentado à mesa. De vez em quando levanta a cabeça e sorri, animando-nos. Não é nada demais e daqui a uma semana estaremos passando bem. Nos refestelamos no sofá, felizes,  e olhamos distraidamente em volta. De repente, na penumbra debaixo da mesa, vemos as pernas do medico. Ele arregaçou as calças até as coxas e veste meias de mulher.

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Extraído do conto Manual de Instruções, do livro Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar. Tradução de Gloria Rodrigues em Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal, organizado por Flávio Moreira da Costa, Ediouro, 7ª Edição, 2001.

  • Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois] algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo.
  • Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz.

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Extraído do conto Manual de Instruções, do livro Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar. Tradução de Gloria Rodrigues em Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal, organizado por Flávio Moreira da Costa, Ediouro, 7ª Edição, 2001.

  • Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numacontração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente.
  • Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.
  • Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com a palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco. Na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.

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Extraído do conto Manual de Instruções, do livro Histórias de Cronópios e Famas, de Julio Cortázar. Tradução de Gloria Rodrigues em Os 100 Melhores Contos de Humor da Literatura Universal, organizado por Flávio Moreira da Costa, Ediouro, 7ª Edição, 2001.

Qualquer almoço em restaurante que envolva churrasco ou carnes no espeto exige um acompanhamento único e muito especial: a polenta frita.

Mas muitas vezes ela não é servida como deveria: bem quente e crocante. Eu canso de encontrar por aí polentas moles, quase iguais ao pão adormecido.

Com o objetivo de estimular o aprimoramento da polentinha frita por parte de nossos restaurantes, elaborei um pequeno ranking de qualidade com base nos locais que frequento de vez em quando:

1) Gutes Essen

2) Em Brasa Costelão 24 horas

3) Ataliba

Se você tiver alguma indicação de polentinhas fritas com a necessária qualidade em algum estabelecimento, pode me indicar.

Depois de uma criteriosa análise técnica de minha parte, pode ser que eu atualize o ranking futuramente.

Andei descendo a lenha no Comitê do Itajaí, aquela ONG que vetou a reurbanização da margem esquerda da Beira Rio e cuja secretária executiva, Beate Frank, ataca obras primordialmente por serem da iniciativa privada. Quando esse tipo de discurso de inspiração comunista suplanta os argumentos técnicos, devemos nos preocupar. Afinal, essa turma tem o poder de vetar o recebimento de recursos federais pela cidade.

Alguns defensores do tal comitê disseram que eu devia conhecê-lo melhor. Foi o que fiz. E descobri uma coisa: nosso único representante confiável é o Sintex, o sindicato da indústria têxtil de Blumenau. É a ele que devemos recorrer se quisermos algum contraponto ao pensamento esquerdóide da turma que toca a entidade.

A desimportância de Blumenau

Visite o site www.comiteitajai.org.br e confira. O tal comitê tem 50 representantes. Dei-me ao trabalho de contar: são 20 representantes do Alto Vale, três entidades ligadas aos índios, 11 instituições oficiais com sede em Florianópolis e apenas três de Blumenau.

As três de Blumenau são: Furb, Samae e Sintex. Pra você ter uma ideia, a Secretaria Regional de Blumenau não faz parte do troço. Quem tem assento lá é a SDR de Taió, cidade, como sabemos, muito maior e mais importante que Blumenau.

A Furb, cuja área de meio-ambiente é dominada pelo pensamento comunista, não conta em nossa defesa. Para eles, aquela meia dúzia de Pataxós, Xoklengs ou seja lá o que for, de José Boiteux, são muito mais importantes do Blumenau inteira. Acham que você e eu somos invasores e devíamos devolver as terras aos bugres, embora nenhum deles se disponha a acolher um índio em casa. O Samae já não dá conta das próprias atribuições, quanto mais atuar em questões ambientais de grandes dimensões estratégicas.

Sobra-nos o Sintex.

Melancia

O governo deu muito poder a Ongs e órgãos ambientais, que foram rapidamente tomados por ativistas travestidos de técnicos. São conhecidos como agentes melancia: verdes por fora, vermelhos por dentro. O próprio Lula já reclamou deles, depois de apoiá-los durante anos. Na última segunda-feira, a Ideli se descabelou toda quando viu que os fanáticos comunistas do Instituto Chico Mendes forjaram fatos para impedir a instalação de um estaleiro em Biguaçu, afugentando centenas de empregos e investimentos de R$ 2 bilhões.

É esse tipo de coisa que me preocupa. Em nome de seus princípios ideológicos, pessoas com formação esquerdista acabam atuando contra o desenvolvimento, ultrapassando muitas vezes a fronteira do bom senso.

No caso do Comitê Gestor do Itajaí, o único representante de Blumenau desvinculado de preceitos ideológicos é o Sintex. Confiemos, pois, que os empresários do setor estejam atentos.

Cavalheiros, estamos em vossas mãos.

Sem pé, nem cabeça

O site da Câmara de Blumenau não é só tosco, horroroso e feito a facão. Ele é também meio abilolado das ideias. Quem cuida dele deve ter uns quatro parafusos a menos. Um dia tem uma coisa, no outro não tem mais. Primeiro sumiram com um campo de busca que tinha lá. Era muito útil, pois a gente podia pesquisar por assunto.

Agora, tiraram fora o link “Vereadores”, em que você podia ver a lista de todos os vereadores, com telefone, e-mail, etc.

Ou seja: no site da Câmara de Vereadores você encontra de tudo. Menos os vereadores. O próximo passo, a continuar nesse ritmo, vai ser fechar o site de vez. Não estaremos perdendo grande coisa.

Vamos para mais uma eleição preocupados com a representatividade política da região de Blumenau. Pra que servem e o que fizeram nossos deputados eleitos em 2006? Fiz a minha própria reflexão:

Décio Lima – É hoje deputado por segunda opção. Quis largar a Câmara para voltar à prefeitura. Só está no Congresso por que não conseguiu. Como não sei como agiria o suplente dele, não sei se ganhamos se perdemos ou se ficamos na mesma.

Ana Paula – Parece ter gostado das funções executivas da Assembléia. Tem um cargo importante, dirige muitas sessões, aparece toda empetecada na TVL e é uma das mais destacadas defensoras da praia de Armação, de Florianópolis. O resto é feijão com arroz.

Jean Kuhlmann – Traiu o nosso voto logo de cara. Largou o mandato para ocupar uma secretaria meia-boca do Luiz Henrique. Quando viu que o cavalo era manco, apeou e voltou para a Assembléia. Era uma aposta do empresariado para suceder o João Paulo. Não é mais. A turma cansou dele. Chega ao final do mandato menor do que entrou.

Gilmar Knaesel – Esse nem adianta comentar. É eleito deputado há mais de 200 anos só pra dar a vaga para alguém de outro lugar, já que nunca assume. Elegê-lo significa subtrair automaticamente um deputado da nossa região. Bem que ele podia transferir o domicílio eleitoral lá pras bandas de Santa Rosa de Lima, dando a vez para outro.

João Pizzolatti – Só apareceu quando foi pra brigar com o João Paulo. Ele deve ter feito alguma coisa de bom, mas eu desconheço. Então, não posso comentar nada.

Quantidade x qualidade

Um dos fatores que contribuem para a força política de uma região é o peso individual de seus políticos. E nisso estamos mal.

Estamos tão mal que nossa maior estrela no atual processo eleitoral foi o Ulrich Kuhn, cotado para ser vice da Ideli durante algum tempo. O resto da turma permanece no baixo clero.

No galinheiro dos outros

Costumamos reclamar que o blumenauense vota em candidatos de outras regiões. Mas tem um detalhe: nossos candidatos também buscam votos em outras praças, invadindo territórios dos outros e se comprometendo com outros interesses. Entre no site do Décio Lima, por exemplo. Você verá que o Homem dá bicadas no Sul, faz projetos para o Contestado, cisca no Oeste e até já deu comoventes abraços em velhinhos num asilo de Mafra.

Depois a turma reclama que o César Souza e a Ângela Amin vem tirar votinhos daqui.

A nossa responsabilidade

Erramos ao colocar nas costas de nossos limitados políticos a culpa integral pela nossa falta de resultados na área política. Parte da responsabilidade também é nossa. A sociedade precisa se organizar em torno de alguns temas essenciais e, a partir daí, sistematizar uma forma de acompanhamento, cobrança e operacionalização.

Alguma cidade tem conseguido resultados bastante positivos agindo assim. Talvez seja a hora de fazer o mesmo por aqui.

Internet a facão

Vou insistir. Vou bater o pé. Vou reclamar até morrer. Não existe nada na internet tão tosco, tacanho e arcaico quanto o site da nossa estimadíssima Câmara de Vereadores. Já desisti de pedir pro Mantau dar um jeito na coisa. Não vejo a hora de que assuma outro presidente, capaz de dar um jeito naquela horrorosidade.

Até o Fritz Müller faria um site melhor, enquanto estivesse sentado no barranco do rio olhando pros sapos e pererecas.

Modernos

Napoleão Bernardes promoveu um bate-papo ao vivo com eleitores pela internet. Uma novidade interessante. Marcelo Schrubbe tem produzido vídeos de 30 segundos, em que aparece opinando sobre alguns temas.

Aos poucos, a turma vai aderindo às novas ferramentas de comunicação.

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