Blumenau não vai ter carnaval de rua. Não tem problema. Ninguém vai sentir falta.  Além de não ter importância nenhuma, o cancelamento da festa vai poupar uns trocados para os cofrinhos da prefeitura. Mais do que qualquer conseqüência sócio-antropológica, a suspensão mostra o quão dependente do dinheiro público são as manifestações culturais em Blumenau. Parece que todo mundo quer se escorar na prefeitura para fazer qualquer coisa.

Se a prefeitura não der grana, os teatreiros não teatram, os clubes de caça e tiro não caçam e não atiram. O Metropolitano não joga bola, o estádio não rola e o Ciefe não decola. Sem o dinheirinho dos impostos Blumenau não tem Natal, não tem Páscoa e Carnaval.

Já tem até artista querendo que a prefeitura arrume público pra ele. Só falta aparecer um poeta dizendo que não pode poetar se o João Paulo não comprar uma caneta Bic pra ele.

Aversão histórica

Carnaval de rua em Blumenau sempre foi  algo tão culturalmente distoante quanto o Zeca Bombeiro reger a orquestra sinfônica de Berlin. A aversão ao carnaval por parte das castas culturais da cidade é histórica. Todas as tentativas de se realizar algo nesse sentido foram devidamente sepultadas.

Nos anos 70, moradores do Beco Araranguá tentaram subverter a ordem, realizando um desfile pela Rua 7 de Setembro na marra. A pronta intervenção da PM deu cabo do negócio.

A descarnavalização de Blumenau

Blumenau já teve Carnaval. Mas isso foi lá pela década de 30, quando a festa era divertimento para as elites sociais. Na medida em que o evento ganhou as ruas, transformando-se na alegria da pobretada Brasilzão afora, ao mesmo tempo em que se vulgarizava, a parte chique da população passou a torcer o nariz para o evento.

A cidade se distanciou tanto do Carnaval que virou até referência nacional. Recordo que até dez anos atrás o Jornal Nacional mostrava nossas fábricas em pleno funcionamento no período, quase sempre sob uma manchete do tipo “O Brasil que não pára no Carnaval”.

Hoje isso não funciona mais. O Brasil está globalizado. Ninguém vai querer perder um contrato com Xangai em nome de uma tradição festiva. Blumenau continua trabalhando no Carnaval. Mas já não está mais sozinha. Deixou de ser notícia por causa disso.

Alívio

Com o cancelamento do carnaval de rua deixamos de correr pelo menos um grande risco. Algum iluminado poderia ter a ideia de trazer a Geisy Arruda para desfilar, definindo-a como “a estrela loira que arrasa no Sul”. Não sei se o asfalto que nos resta iria aguentar.